Conheci Spicy J em 2022, durante uma feira de conteúdo adulto em Barcelona. Na época, eu trabalhava como revisor de roteiros para uma produtora independente, e o nome dela já circulava nos bastidores como uma das performers mais versáteis do circuito europeu. O que me chamou a atenção não foi apenas a presença de palco, mas a forma como ela conduzia as conversas nos intervalos: objetiva, sem firulas, com um domínio impressionante de inglês, espanhol e um pouco de português que ela havia aprendido em turnês pelo Brasil.
Em uma das sessões de gravação, precisei ajustar algumas falas que estavam em espanhol para o português brasileiro. Spicy J leu o material na hora, apontou duas expressões que não soavam naturais no contexto e sugeriu substitutas que mantinham o tom erótico sem cair no clichê. Naquele momento percebi que ela não era apenas uma performer; tinha um ouvido afiado para nuances linguísticas. Isso é raro, mesmo entre profissionais que trabalham com múltiplos idiomas. Ela me explicou que, antes de entrar na indústria, havia feito faculdade de Letras na Alemanha e trabalhado como tradutora freelancer para sites de nicho.
Depois da gravação, fui convidado para o camarim. Spicy J estava revisando um contrato de licenciamento de imagens para o mercado asiático. Ela me mostrou como negociava cláusulas de distribuição territorial – algo que exige conhecimento jurídico e sensibilidade cultural. Enquanto maquiava os olhos para a próxima cena, comentou sobre a dificuldade de encontrar agentes que entendessem as particularidades do mercado brasileiro. Foi aí que trocamos contatos e, nas semanas seguintes, começamos uma parceria informal: eu revisava os textos em português das suas redes sociais e ela me dava dicas sobre o circuito europeu de conteúdo adulto.
Uma das coisas que mais me marcou foi a disciplina de Spicy J com a própria imagem. Ela mantinha uma planilha com datas de lançamento, métricas de engajamento e contatos de tradutores em pelo menos seis idiomas. Certa vez, perguntei por que se dava tanto trabalho com a localização, já que o conteúdo dela já era sucesso no original. Ela respondeu: “O público brasileiro é fiel, mas exige autenticidade. Se eu falo errado ou uso uma gíria que não faz sentido, perco credibilidade.” Essa obsessão por precisão linguística fez com que eu revisasse cada post com mais carinho, e os resultados apareceram: o perfil dela no Brasil cresceu 40% em três meses.
No ano passado, Spicy J veio ao Rio de Janeiro para uma turnê de eventos. Ela me pediu para acompanhá-la como assistente de produção, basicamente para garantir que as entrevistas e posts saíssem no tom certo. Durante uma semana, vi de perto como ela lidava com fãs, imprensa e outros criadores de conteúdo. Em uma das noites, depois de um show, estávamos revisando o material do dia e ela desabafou sobre o cansaço de estar sempre “ligada”. Ali, mais do que editor, fui ouvinte. Percebi que, por trás da persona Spicy J, havia uma mulher inteligente, cansada dos estereótipos da indústria e que usava o domínio dos idiomas como uma ferramenta de controle sobre a própria carreira.
Hoje, quando pego um projeto de localização para conteúdo adulto, penso nas conversas que tive com ela. Spicy J me mostrou que traduzir não é só mudar palavras – é entender o contexto cultural, o taboo de cada país e a expectativa do público. Por exemplo, em português brasileiro, certos termos anatômicos soam mais crus do que em inglês, e ela sabia exatamente quando usar um termo técnico ou uma expressão mais coloquial. Esse cuidado não veio de manual, veio da experiência prática de quem vive o mercado e respeita o espectador.
Chegamos a planejar um guia bilíngue para performers que querem atuar no Brasil, com dicas de gírias, expressões regionais e armadilhas linguísticas. Spicy J escreveu os primeiros capítulos, eu revisei, mas a agenda dela explodiu e o projeto ficou parado. Ainda assim, tenho os arquivos salvos. Quem sabe um dia ela retome. Enquanto isso, continuo acompanhando o trabalho dela – agora como amiga, não só como editor. Cada vez que vejo um vídeo novo ou um post em português impecável, lembro da noite no camarim em Barcelona, quando uma performer me ensinou que idioma também é performance.